Arquivo mensal: setembro 2011

Pinte-se:

Mostre-se, as pessoas não vão ligar para seus defeitos,
mostre o que de bom você tem, mostre tudo, não se preocupe se os defeitos aparecerem.
Coloque aquela saia justa que realça o pouco bumbum que tem, os que virem vão desejar,
deixe à mostra também as pernas pouco torneadas e mal depiladas,
não se esqueça do salto, não é circo, mas você precisa de fazer malabarismo para se equilibrar em cima dele.
Deixe o colo se mostrar através do decote exagerado, mas cuidado, guarde a surpresinha pro final da festa.
Pinte-se, pinte como se fosse outra pessoa, pra ninguém reconhecer, pinte-se como só você se pinta,
não ligue, ninguém vai notar.
Escove os cabelos, fique irreconhecível, e todos verão quem é você.
Pela manha vá sem se despedir, antes que ele reconheça você, antes que você o reconheça.

O meu amor.

“O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa”

Chico Buarque

Acrilic On Canvas

“É saudade, então. E mais uma vez de você fiz o desenho mais perfeito que se fez, os traços copiei do que não aconteceu, as cores que escolhi entre as tintas que inventei, misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos, de um dia sermos três, trabalhei você em luz e sombra. E era sempre, não foi por mal. Eu juro que nunca quis deixar você tão triste. Sempre as mesmas desculpas, e desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são. Preparei a minha tela com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar; a armação fiz com madeira da janela do seu quarto; do portão da sua casa, fiz paleta e cavalete; e com lágrimas, que não brincaram com você, destilei óleo de linhaça; da sua cama arranquei pedaços que talhei em estiletes de tamanhos diferentes e fiz, então, pincéis com seus cabelos. Fiz carvão do batom que roubei de você, e com ele marquei dois pontos de fuga, e rabisquei meu horizonte. E era sempre, sempre o mesmo novamente, a mesma traição. Às vezes é difícil esquecer: “Sinto muito, ela não mora mais aqui”, mas então, por que eu finjo que acredito no que invento? Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito, ninguém sofreu. É só você que me provoca essa saudade vazia. Tentando pintar essas flores com o nome de “amor-perfeito” e “não-te-esqueças-de-mim”.”

Legião Urbana

Signo

Austeridade. Essa palavra, tão usada, chamou minha atenção, notei que me definia, senti-me austera. Que delícia essa coisa de palavras, me identificar, um ser tão complexo, tão amplo, tão cheio de anseios, se esgotar, se caber numa única palavra. Austeridade. Que delícia!

Como se soubesse me mover

Movo-me entre os meus dias, entre me ser e ser alheia; entre ir e não voltar, e voltar antes de ir. Movo-me entre as horas, entre as tarefas bem feitas e as tarefas nem-feitas. Movo-me entre os minutos, entre crer no deus e ser o deus; entre rir e antipatizar. Movo-me entre os segundos, buscando não parar, buscando persistir. Por fim, movo-me como quem sabe se mover.

Quando minha chama se apagar

Já não anseio pela resposta, pelo e-mail, pela visita, pelo telefonema. Ontem só havia você, ontem era: casa, você, trabalho, você, faculdade, você, Taekwondo, você, você, você, academia,você, cursinho, você… Era você. Hoje, basta-me o conforto de sabê-lo ali, sem anseio, sem fogo, sem pressa… Talvez seja você, talvez eu, me desculpe, a verdade é que quando minha chama se apagar, você bastará, bastará ter existido, e pronto. Passo a vez, que me venha a vida com um novo amor!

Porta aberta!

Ele abriu a porta, depois de decidirmos, maduramente, sabiamente, como só nós faríamos, que viraríamos a folha, sem esquecer a página. Ele diz: “Eu quero te ver”, como se eu também não quisesse. E o que eu faço? O melhor que poderia fazer ao descobrir-me incapaz de agir, Não faço! Ainda que pareça indiferença – o que não é nem de longe- faço nada. Esse nunca foi o meu dom, mas desde que ele passou por aqui, meu potencial nessa arte tem apresentado um crescimento em progressão geométrica. Como se não incomodasse, como se não ferisse, não desconcertasse, fico aqui, fico ali.. nem cá, nem lá.. na zona de destruição, calada, não aquela calada onde não se diz nada, mas aquele silêncio de quem foi calado. Calada pela circunstância, pela delicadeza da situação.

Mesmo aqui – onde disseco meu interior e me surpreendo até, com estas revelações que até então eram secretas até a mim- oculta-se a esperança, a angustiante esperança. AN-GÚS-TIA, se houver um sentimento pior que este, definitivamente é pena para mortais de um nível mais elevado, não é pra mim. A pena mais labutar a mim é a tal da angústia, só de ouvir esta palavra sinto meu fígado cair, derreter, passando entre o estômago, o intestino e pousando sob o útero.

Já me perguntei várias vezes o porquê desta porta? Por que agora? mas não perguntarei a ele. Vai corroer por dentro, e tudo bem, como produto muito bem falsificado e caro, que se perde de dentro pra fora. Sou eu. Ele não vai notar, ninguém notará. Meu fim será um mistério. Um mistério, talvez, até a mim. Faço bem esse papel!

Um dia ego serei.

Já fui melhor, por tornar tudo melhor, não por sê-lo. Seria impossível ser melhor e tornar tudo melhor. Há aqui uma incompatibilidade. No momento em que valorizava estabilizar, estabilizei, não me apeguei ao meu ego. E no momento em que me permitir ser tão medíocre quanto vocês e me apegar tão somente a meu ego, ego serei. Então o que sou? Sou momento.

Não saber


Uma incapacidade que só cresce, nunca recua, e eu continuo não
sabendo lidar. Perco tempo, distraio-me, fujo, perco-me… E
isso nunca foi a solução. Digo sempre que a solução é interna,
e quer saber? É só comodismo, ainda que seja labutar
encontrá-la lá, é ainda mais fácil que buscá-la fora. Embora não confesse, direi: não sei o que fazer, não sei por onde começar.
Alguma coisa já mudou, não paro mais ao me defrontar com o
fatal ‘NÃO SABER’, não paro mais, não saber já não me obsta. Vou
a esmo, não interessa o destino, mas não me quieto mais… E
veja, já não me acompanho. Impossível seria ser maior do que
eu mesma, embora não seja menor.